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O primeiro morador

O primeiro morador de Campo Grande, que se tem notícia foi o fazendeiro Mota, mineiro, estabelecido a poucas léguas da atual zona urbana da cidade. Foi a única moradia encontrada pelo tenente Alfredo Taunay, entre a fazenda Correntes, da família Mascarenhas e povoação de Camapuã, em sua viagem de volta ao Rio de Janeiro, terminada a retirada da Laguna em junho de 1867. O registro está em seu dia diário em 20 de junho:

"Tomando uma trilha à esquerda, dirigimo-nos à palhoça do Mota, situada légua e quarto do nosso ponto de partida. O caminho é nesta parte péssimo; profundos atoleiros dificultam muito o trânsito, aumentando-se cada vez mais os embaraços da passagem pela frequência de carros e tropas que demandavam as forças. Acha-se o rancho do Mota situado numa planície acidentada, que belos grupos de buritis tornam realmente encantadora. A umidade exsuda de todos os pontos e manifesta-se não só pela presença daquelas palmeiras como por um viçoso capão de pindaíbas.

Aquele pobre cultivador com o seu único trabalho conseguira plantações importantes em relação aos seus diminutos meios, e grandes roças de milho, de feijão e arroz davam-lhe a possibilidade de ajuntar algum dinheiro depois de contínuo movimento que a estada das forças no distrito de Miranda estabelecera. Entretanto, uma singular mania absorvia completamente todos os seus recursos; pois sustentava uma demanda em Piumbí na província de Minas Gerais, alimentada a muitos anos pelo dinheiro que seus braços a muito custo arrancavam da terra".

Em suas memórias, Taunay fala mais do Mota, ocultando sempre o seu prenome:

Nem de propósito, conhecia excelente ponto de pousada, arredado do caminho umas duas léguas, o rancho do Mota, onde encontraríamos milho em abundância para nossas cavalgaduras, dando-lhes justo resfôlego, antes de nos atirarmos às fadigas do sertão bruto em que mais precisas nos deviam ser a boa disposição e celeridade.
  De opinião contrária era eu; que se avançasse, que tudo não passava de simples suspeita, vagas apreensões, senão de todo insubsistentes, pelo menos bem pouco fundamentadas.. Apoiava-me, no estropiado português cheio de inflexões flmangas, o Wandervoert. Gouveia nada dizia, pois ia sorumbático, enregelado e de antemão todo trêmulo, tanto mais que o frio entrara deveras, cáustico, mordicante, por vezes áspero e nos fazia já bastante sofrer, açoutado por ventozinho fino, displicente, agudo, nas cercanias do vasto e desabrigado chapadão.
  - Em todo o caso, condescendi, vamos até o Mota. E, despachando com uma resposta a lápis o soldado de cavalaria, deixamos a estrada direita e tomamos atalhozinho ensombrado em direção à vivenda que nos devia hospedar aquela noite, porquanto não tínhamos mais duas horas de sol.
  Aquietou-nos não pouco esse Mota, mal fomos chegando e sujeitando-lhe os motivos da nossa hesitação: "Quais paraguaios! exclamou ele com vivacidade; há um ano e meio, não há dúvida, estiveram por ali, fazendo mate, mas não se demoraram. Andavam muito assarapantados com medo dos índios. Certamente não hão de voltar, não se me dá de apostar. Se os senhores quiserem, amanhã irei sozinho na minha mulinha vadear o passo.
  Que tipo esse tal Mota! Um dos mais estrambóticos e fora do comum que jamais encontrei nas minhas jornadas pelo interior. Velho, mas forte e musculoso, com olhinhos muito vivos, abrigados por enormes e hirsutas sobrancelhas, vivia sozinho com um meninote branco de ar aparvalhado pelo excesso de trabalho e existência solitária, acolhido por misericórdia, naturalmente um pobre coitado fugido aos maus tratos de alguma tropa de carreiros ou tocadores de boiada. Plantavam, eles duas grandes roças de milho e feijão de que tiravam fartas colheitas. "Mas o senhor, perguntei-lhe, não tem receio dos bugres?" Qual! Matar-me, não é? Estamos neste mundo para morrer. Que me faz seja amanhã ou depois, deste ou aquele modo? Muito mais me anarquizam os macacos e papagaios, do que eles que até agora, louvado seja, não me têm vexado, inda que há muito tempo, andem me rondando por perto do rancho".
  Era este homem - imaginem o quê? não, não é possível imaginar-se - era demandista de corpo e alma. Não devia, porventura, causar-me a mais inesperada das surpresas encontrar semelhante especialidade em tão ínvias e mal exploradas funduras?
  Todo dinheirinho que apurava, lidando no solo com um mouro e levando enormes distâncias num cargueiro manco de gêneros que dele tirava, era para sustentar renhido e complicado pleito sobre terras, iniciado contra um irmão mais velho, e continuado, por falecimento deste, com os sobrinhos, isso a centenas e centenas de léguas em Piumhi, na província de Minas Gerais. Impossível também saber-se mais na ponta da línguaos trâmites judiciários em todos os seus ambages, meandros, segredos e chicanas, conhecer mais a fundo qualquer questão do foro, desde as primeiras tortuosidades, manhas e manobras do oficial de justiça e do rábula até aos solenes acórdãos dos tribunais superiores. Daquela em que estava, há tantos lustres, empenhado -  por capricho, berrava, e para quebrar a castanha na boca dos cabeçudos! - falava com inexcedível calor e tal volubilidade, que me pôs positivamente tonto. Dava conta, incidente por incidente, das maiores inquirições, provas e contraprovas, arestos, agravos, embargos, apelações, e enumerava o nome por extenso de todos os juízes que haviam funcionado nas diversas instâncias, bem como dos membros das relações em que tinham ido parar os bojudos autos, chegado então, pelo que supunha, ao Supremo Tribunal de justiça.
  - " O doutor, disse-me afinal com persuasivo entono e ameigando a vez, bem me poderia ajudar o seu bocadinho, já que vai ao Rio de Janeiro. Olhe, tome umas notas, não custa nada. Vá ter com os ministros conselheiros; mostre-lhes a boa causa; fale em meu favor"!
  Ri-me desta cabala em pleno sertão; mas declinei de qualquer compromisso em tão emaranhado litígio, cujo histórico me havia feito cabecear de sono. Cada qual com o seu duende, o Mota todo entregue à diuturna demanda que o absorvia, nós aos nossos possíveis paraguaios, lá na frente.
  Resolvemos, afinal, deixar passar esse dia ae partir à tardezinha calculando a marcha de modo a irmos cortar os sítios suspeitos em trecho adiantado da noite.
  Lá por volta das quatro horas despedimo-nos, pois, do nosso hospedeiro, que ainda conosco gracejou, ao pormos pé no estribo: "Se os tais amigos lhes derem um vú, tratem de vir tomar respiração aqui, nesta tapera".
  E, já distantes, o ouvi gritar:
 
- Fale, doutor, na Corte...Não se esqueça do velho Mota!



FONTE: Taunay, Memórias, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1946, página 263. 


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