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Sangue na despedida




Augusto Ilgenfritz


Episódio insólito, marcado pela insolência de opositores do governo e pela reação violenta do chefe de polícia do região Sul, major Antonio Gomes da Silva, foi a nota desafinada da extensa agenda do governador Costa Marques, em sua estada em Campo Grande, durante sua excursão ao Sul do Estado, de 11 a 15 de outubro de 1912.. Paulo Coelho Machado resume a ocorrência:

"Terminada a cerimônia, formada, escolta, a fim de seguir o percurso de volta, eis que surgem, de inopino, dois oradores. O primeiro era Antonio Antunes Galvão, que, de cima de um caixote improvisado em tribuna, sem conseguir ocultar a emoção que o dominava, ataca veementemente o governo  e a política do Partido Conservador. Logo é substituído por Augusto Ilgenfritz, coronel provisório do Rio Grande do Sul, aqui refugiado, irrequieto e  bravo, que numa linguagem rude, com exagerado timbre gaúcho na voz e gestos imoderados, enaltece o partido da oposição, o PRMG, repete as críticas ao governo e, dirigindo-se ao major Gomes, grita provocadoramente: - Este ladrão de cavalos, este cão imundo...

Mas não pode continuar, porque o major, esporeando a alimária, aproxima-se, enfurecido, do orador e enfia-lhe a espada boca a dentro, bradando: - É para aprender a dobrar a língua e não ofender os outros, alemão atrevido.

O presidente dá voz de prisão ao comandante de sua escolta e, tranquilamente, enceta a marcha de regresso.

Ilgenfritz demorou a recuperar-se do grave ferimento".1

Ameaçado de morte por subordinados do major Gomes, o gaúcho fugiu de Campo Grande, com a família, indo parar no Rio de Janeiro, onde, em entrevista ao Correio da Manhã, deu sua versão ao acontecido:

"Deviam ser 4 1/2 horas da tarde, quando nos entrou pela redação um senhor que trazia ao Correio da Manhã uma longa relação de fatos, com cuja publicidade se poria ao vivo a situação de atrocidades reinantes em Mato Grosso.

O recém-chegado disse-nos chamar-se Augusto Ilgenfritz, ser rio-grandense de origem alemã e residir em Campo Grande (Mato Grosso), onde é comerciante há ano e meio.

E, dada a gravidade das revelações que ia ele proferir,  procuramos estabelecer com o sr. Ilgenfritz uma entrevista sobre o assunto. Ei-la:

- Quando deixou a vila de Campo Grande para vir com destino a esta capital?

- Saí desta vila, onde resido a um ano e meio com minha família, no dia 20 de dezembro último, a fim de fugir à sanha perseguidora dos que buscavam assassinar-me.

- Quando chegou ao Rio e em que condições?

- Cheguei aqui no dia 4 do corrente, em condições de um verdadeiro fugitivo, que nem tempo tem de se munir de roupa e bagagem, tal a iminência de um desfecho fatal para mim. Não porque eu me importe com a ideia de ser vitimado, tenho-a até como certa; mas faço questão de que fiquem esclarecidos os antecedentes do meu assassínio, caso venha ele a dar-se.

- Mas quem é que o persegue tão tremendamente?

- O major Gomes, comandante da polícia de Mato Grosso, bem como todos os seus subordinados. Isso de se ali perseguido pelo mesmo major, é o que há de mais comum. A população vive alarmada com as tropelias praticadas cotidianamente por aquele major; o povo é oprimido e impedido de dizer o que sente. Não há a mínima garantia aos mais sagrados direitos de vida, locomoção e propriedade.

- Quer referir-nos o que se tem passado com o senhor?

- Perfeitamente, é o que mais desejo. Vou relatar-lhe os pormenores que determinaram o ódio e a perseguição que contra mim move o comandante da força policial de Mato Grosso.

Como lhe disse, sou rio-grandense do sul e o major Gomes possui, para com os meus coestaduanos domiciliados naquele Estado, uma animosidade inveterada e injustificável. Basta dizer – o que se pode afirmar com segurança – que esse mesmo oficial exterminou, abala e espada, toda a família do irmão de Bento Xavier. Mas voltando ao meu caso, fui há tempos encarregado  pelo meu amigo, o fazendeiro coronel Antonio da Silva Belicua, da guarda de dois cavalos. Estes tinham sido deixados na estância do coronel Belicua pelo chefe de polícia, quando por ali passara em viagem. Esses animais deviam ser por mim entregues a Amando de Oliveira, encarregado de cavalos para a polícia.

Quando o atual governador, o sr. Costa Marques, visitou há poucos meses o sul do Estado, passou em 15 de outubro último por Campo Grande, com sua comitiva, em cujo meio figurava o major Gomes, comandante de força policial.

Este procurou-me nesse dia em casa do advogado dr. Arlindo de Andrade, onde me achava de visita; provocou-me dizendo-se: “Você tem que dar conta de dois cavalos da força pública, os quais estão em seu poder.

O major nada tinha a ver com tais cavalos; contudo, repliquei-lhe: “Engana-se, porque esses animais não ficaram entregues a quem quer que fosse”. O comandante policial teimou, proferindo com veemência: “Pois eu lhe digo que você os está devendo”. – “Nesse caso, mova ação contra mim, porque por eles responderei em juízo”, retorqui-lhe com naturalidade.

Por aí o major exasperou-se e atirou-me este pesado insulto: “Não o aciono, porque você é ladrão de cavalos do governo”.

O dr. Arlindo de Andrade segurou-me a pôs-se a puxar-me, afim de evitar que se chegasse a vias de fato. Mas, sentindo-me tomado de súbita e espontânea indignação, não me pude conter e repeli a injúria com altivez: “Ladrão és tu”, bradei-lhe.

E nada mais me foi possível aventurar, porque, acompanhando as minhas palavrar, veio apanhar-me o meu maxilar esquerdo uma cutilada violenta com que o meu provocador me agrediu.

Banhado se sangue, dirigi-me ao governador, que se achava pronto para seguir viagem e de quem já havia me despedido. Declarei, então, ao exmo. sr. Costa Marques que não lhe ia pedir justiça; mas se comparecia em sua presença  era para que a verdade, caso eu morresse ali, não fosse adulterada.

Quando assim falara, apareceu minha mulher a quem constara haver eu morrido. Agitada, como se houvera endoidecido, pôs-se ela a clamar, chamando o major de assassino. Acalmou-a um tanto o governador, prometendo-lhe fazer inteira justiça, castigando o agressor. E, no entanto, até hoje goza o funesto major de toda a confiança do governo, continuando a incutir terror à população.

- Mas essa agressão não tem fundo político?

- Absolutamente não; há muito tempo que me acho recolhido à vida privada, tanto que visitei o governador, quando lá esteve, afim de que me não tomassem como oposicionista.

- E por que se viu na contingência de abandonar o Estado, uma vez terminado o incidente?

- Porque a perseguição continuou impertinente, ameaçadora; eu tinha a casa cercada pela polícia todos os dias. Os soldados diziam mesmo: “Ele não morreu hoje, morrerá amanhã”. Compreende com a minha situação era, em tais condições, aflitiva. Não havia outro remédio senão a fuga.

- Como conseguiu realiza-la?

- Escrevi uma carta ao juiz da comarca, dr. Vicente de Abreu, que mandou um oficial de justiça garantir minha residência e lar, onde tão fortes comoções quase enlouqueceram minha família.

- Continuará, então, ameaçado, voltando para Campo Grande?

- Tão ameaçado que conto o meu assassínio como certo; é questão de mais dia menos dia".

Os temores de Ilgenfritz não se concretizaram. Ele retornou a Campo Grande e retomou suas atividades. “Morava numa chácara, no final da rua 26 de Agosto onde – segundo Paulo Coelho Machado- onde mantinha pequena olaria”.

Sua filha Edelweiss casou-se mais tarde com o sargento Leopoldino Rocha. Entre as filhas do casal a famosa artista de televisão e teatro, Glauce Rocha.2


FONTE: 1Paulo Coelho Machado, A rua velha, in Pelas ruas de Campo Grande (2ª. Edição), Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 2008 ,página 90. 2Correio da Manhã (RJ), em 16 de janeiro de 1913; 3Paulo Coelho Machado, op. cit.

FOTO: reprodução do Correio da Manhã.

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