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Inauguração do Banespa



Assis Chateaubriand, convidado ilustre para a inauguração do banco paulista

É festivamente inaugurado em 3 de maio de 1937, o Banco do Estado de São Paulo, na 14 de Julho esquina com a Afonso Pena, em Campo Grande. Presentes ao evento, vários diretores do banco e um convidado especial, o jornalista Assis Chateaubriand. Manuel Azambuja foi o seu primeiro gerente.¹

Presente à solenidade, o escritor Ulisses Serra, testemunhou o seguinte episódio:

"Quando a pequena, mas grande turma, já estava naquele estado de euforia preconizado por Hemingway - que é a terceira dose de uísque - começou a exigir, em tom de algazarra: FALA CHATEUABRIAND! A mesa maior quebrou o protocolo e passou a apoiar a menor. Fala, Fala Chateuabrinad:

O grande jornalista e homem do mundo, embora estivesse em recinto de cidade ainda sertaneja, não se arriscou ao improviso. Vendo sobre o balcão do bar uma bobina de papel de embrulho, cor-de-rosa, gritou ao garçon que o servia: - Acuda-me, meu filho, com um pedaço de papel!

Escreveu ali mesmo o discurso. Começou por dizer que era repórter e não orador; sabia escrever, mas não sabia falar. Depois num estilo personalíssimo, inconfundível, voltou-se para os paulistas presentes e de dedo em riste, voz forte e ameaçadora acusou-os: -Esses paulistas, matogrossenses, roubaram o vosso ouro no passado, levando-o atrevidamente no dorso das monções! Agora eles o vem devolver amoedado.

Naquele ambiente, já de trepidação e entusiasmo, todos nivelados pela mesma alegria comum, útil ao estreitamento rápido de conhecimentos recíprocos, entre nós daqui e aqueles que vinham operar em nossa praça, sibilei um aparte: - E os juros de mora?

O dono do império dos Associados, voltou-se mais uma vez para os paulistas, com a mesma ênfase anterior: - Devedores retardatários, impontuais, paguem-nos com os juros de mora. E se forem corretos, mesmo, capitalizem-nos!

A essa altura, esqueceu-se do papel de embrulho cor-de-rosa que tinha nas mãos. E continuou num crescendo maravilhoso, empolgante, sob frenéticas palmas de todos, da pequena e da grande mesa. Quebraram-se as últimas e frágeis barreiras de convencionalismo para operar-se rapidamente uma grande confraternização e um largo bate-papo depois. Mais tarde, muito da caravana, guiados pelos donos das nossas noites estreladas - Issa e Badinho, foram conhecer o resto da cidade.

Aquele discurso, pela alegria que trouxe ao banquete, castigado de protocolo, de números, de cifras e de programas, foi providencial. Além de um discurso esponencial e antológico".²

FONTE: Paulo Coelho Machado, Rua Principal, Tribunal de Justiça, Campo Grande, 1991, página 35. Ulisses Serra, Camalotes e guavirais, Editora Clássico-Científica, São Paulo, 1971, página 107

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